Mostrar mensagens com a etiqueta 28 de Janeiro 2009 (Jornal de Angola). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 28 de Janeiro 2009 (Jornal de Angola). Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de fevereiro de 2009

As Tradições

No acumular de experiências, os Povos foram seleccionando comportamentos e regras que se transformaram em tradição. Faz parte do processo de evolução das sociedades. As tradições, necessariamente datadas, porque adaptadas às condições que as determinaram, foram mudando ao longo dos séculos. É o que parece normal.

Infelizmente não é raro fazer-se recurso á tradição para travar o progresso. E isso é válido tanto para o apedrejamento das mulheres adúlteras, quanto para o corte da mão do ladrão, ou o pagamento de alembamento, lobolo, ou como lhe quisermos chamar. É válido para a poligamia.

O mal da tradição é servir para legitimar situações na contramão da história e da lei, carregando-as de uma carga social que faz com que as pessoas que possam discordar tenham receio de ser apelidados de anti-populares. Ou de hereges! O mal da tradição é poder ser utilizada como arma de arremesso de pessoas mal-intencionadas, sempre que as mesmas procuram agitar com base mais na emoção que na razão.

As recentes alusões a uma eventual proposta para a inclusão na Constituição da possibilidade da poligamia, não parece fazer qualquer sentido. Assim como não me pareceu fazer sentido as respostas pouco enérgicas dos dirigentes dos partidos que foram confrontados com tal questão. Parece estarem todos preocupados com a sua situação pessoal, ou com o efeito das suas palavras num eleitorado predominantemente machista. O problema que se coloca quando se fala de poligamia, é o do respeito pela mulher (a não ser que se esteja a alargar a possibilidade de haver não apenas ‘A Outra’, como canta o Matias Damásio, mas também ‘O Outro’!). O problema é igualmente o da preservação do núcleo familiar, e dos tais valores morais, que foram referidos no discurso de fim do ano de Sua Excelência o Presidente da República. É claro que há questões que a sociedade devem abordar sem rebuço, e encontrar as soluções que se impõem. Não se pode enterrar a cabeça na areia e fingir que as situações não existem. É evidente que se deverá, apesar de haver legislação para isso, reforçar os direitos das famílias que se formam ‘fora de casa’, em particular o direito dos filhos. Mas o que parece evidente igualmente é que não se deve encorajar esse tipo de solução, em particular quando o país caminha a passos largos para a normalidade, e as situações decorrentes das fragilidades criadas pela instabilidade, tendem a acabar.

As tradições (e as religiões) procuraram legitimar situações que afectavam as sociedades no momento em que elas se estabeleceram. Nada é eterno. A vantagem de sermos seres humanos está na possibilidade de sermos objectivos nas análises que fazemos, e encontrarmos as soluções mais adaptadas, sem os espartilhos das regras impostas pelo passado, muitas delas desactualizadas. Não desrespeitar o passado e a tradição, mas enquadrá-los de forma consciente na sociedade actual. Procurar manter o que é positivo, como a protecção da família, e o respeito pelos mais velhos, e revogar o que está caduco.

O exemplo que é muitas vezes esgrimido, o da quinta esposa do Jacob Zuma, não parece colher. É só mais um dos vários maus exemplos que deu.