Chegou a época do Natal, e a dos cabazes.
Cabaz é um termo que significa um conjunto de produtos. Mas, no nosso contexto, ele é quase sempre associado à oferta que se vulgarizou fazer nesta época do ano, e que inclui frutos secos tais como nozes e avelãs, vinho, bacalhau e azeite doce.
O cabaz parece-me mais um anacronismo que está a custar a passar. Sem nunca ter feito muito sentido, em particular no que respeita à sua composição, a sua popularidade explicava-se, num período de muito menos oferta do nosso comércio, pois permitia ter algo diferente numa época especial para a maioria das pessoas. Afinal, o bacalhau não deixa de ser peixe seco, e sempre enriquecer o calulu, mesmo se não for regado com azeite doce… Mas hoje, não faz o mínimo sentido. Em particular quando o mesmo é imposto. Os trabalhadores, sejam eles de uma instituição pública ou privada acabam por receber um prémio não necessariamente do seu agrado, quando seria muito mais lógico eles receberem esse prémio em dinheiro, e poderem aplicá-lo onde e como bem entendessem. Não consigo deixar de imaginar alguém que precisa de uma ajuda ao orçamento familiar para comprar algo importante para os filhos, ou para eles próprios, e que chegam a casa com avelãs e nozes, e, os mais afortunados, com uma garrafita de vinho do porto.
O que me parece essencialmente prejudicial no cabaz é a forma como ele fere todo o tecido económico nacional, e coarta a liberdade de escolha de quem o recebe compulsivamente. Promovendo produtos importados, ele impede que os que são produzidos localmente sejam seleccionados. E isso não só não é um estímulo para a economia como é particularmente injusto para quem está a investir numa rede comercial de qualidade, pois uma parte considerável dos cabazes vem em processos de importação directa, em particular para as grandes empresas públicas e privadas, agregando muito pouco a um mercado em expansão e cheio de vitalidade. Por outro lado, quem recebe, acaba por ficar com produtos que dispensaria. O mesmo se passa com a distribuição de brinquedos…
É importante enfatizar que não tenho nada contra quem goste de bacalhau, ou nozes. Eu, até gosto! Ou contra quem pretenda oferecer brinquedos aos seus filhos. Estão no seu direito. O que me parece é que devemos deixar as pessoas fazer as suas próprias escolhas. E, se tiver que haver alguma promoção, em particular através de aquisições financiadas pelo Estado ou instituições estatais, que tal incida sobre produtos produzidos localmente. Caso contrário, estamos a dar tiros no nosso próprio pé. Uma das consequências negativas da globalização é a criação de hábitos que só beneficiam quem tem mais poder de persuasão através de mecanismos de publicidade. E quem domina os media são os ditos países do primeiro mundo.
As modas alteram velhos hábitos, criam novos, e têm sempre a intenção de vender. Se concordamos que não temos que ser escravos do tradicional, e entendemos a mudança, pensamos ser necessário estar atentos às implicações económicas que a mesma promove. E isso não é xenofobia, é pragmatismo.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
A Vitória do Mérito
Não sou dos que acreditam em milagres. Prefiro acreditar que os resultados são a consequência do sacrifício consentido, do trabalho, e da capacidade que se tem de análise da situação sobre a qual se pretende intervir. Estou consciente que nem sempre o resultado é directamente proporcional ao esforço desenvolvido. A quantidade de factores que pode influenciar o resultado, em particular em experiências com forte componente social, é tão grande, que nunca é possível saber com absoluta certeza o que vai finalmente acontecer. E é claro que quando há factores que influenciam o resultado, tal como a corrupção, o nepotismo ou o preconceito, pode não haver esforço que resulte.
A vitória de Obama foi uma pedrada no charco da política tal como usualmente é feita. Se é verdade que o estado actual da economia americana, e a sua precária posição internacional, onde o nível de contestação às suas políticas está em crescendo, criaram condições especiais, que acabaram por afectar o órgão mais sensível dos americanos, o bolso, não deixa de ser notável a eleição de um presidente de uma das minorias, num país tão marcado por fracturas criadas na base do preconceito. Há, no entanto, um enorme conjunto de perigos na sua trajectória como presidente do país mais poderoso do mundo, o mais pequeno dos quais não é, certamente, o excesso de expectativa que todos têm no seu desempenho. Como me disse um amigo, parece que chegou o novo Messias! E aí voltamos aos milagres…
Os desafios que se colocam a Obama são enormes. Ele tem não só que reverter a tendência da economia nos Estados Unidos, como melhorar a prestação ambiental resolvendo o problema energético e não afectando a competitividade da indústria, manter o papel de liderança do seu país sem ferir as pretensões dos seus aliados, controlar as potências emergentes, sair do Iraque com um mínimo de dignidade, combater os extremismos, agradar aos seus eleitores e ainda ser o ‘nice guy’ que todos esperamos que olhe para o Terceiro Mundo de forma diferente.
Não podemos esquecer que o poder de qualquer presidente, e em particular nos Estados Unidos da América, não é tão absoluto como se pode pensar. O homem mais poderoso do mundo tem que satisfazer uma infinidade de grupos de pressão, para além de lobbies poderosíssimos como o dos petróleos e o da indústria do armamento. E tem que sobreviver!
Mas o importante desta eleição é que parece que estamos perante alguém que não só é brilhante, mas genuíno nas ideias e posições que defende. Alguém que não parece; à partida, comprometido com os elementos mais nocivos do sistema, mas que, pelo contrário, tem um assinalável percurso de intervenção social. Alguém que herdou uma situação que lhe permite pensar na mudança de uma forma muito mais radical que os seus antecessores, pois existe uma predisposição para tal, dada a gravidade da situação. Alguém que foi eleito, apesar de todos os obstáculos que lhe foram colocados. Apesar dos fantasmas que foram sendo evocados.
O importante desta eleição, foi termos assistido a algo diferente, bom e reconfortante: uma rara vitória do mérito sobre o preconceito.
Uma lição sobre a qual nos cabe reflectir.
A vitória de Obama foi uma pedrada no charco da política tal como usualmente é feita. Se é verdade que o estado actual da economia americana, e a sua precária posição internacional, onde o nível de contestação às suas políticas está em crescendo, criaram condições especiais, que acabaram por afectar o órgão mais sensível dos americanos, o bolso, não deixa de ser notável a eleição de um presidente de uma das minorias, num país tão marcado por fracturas criadas na base do preconceito. Há, no entanto, um enorme conjunto de perigos na sua trajectória como presidente do país mais poderoso do mundo, o mais pequeno dos quais não é, certamente, o excesso de expectativa que todos têm no seu desempenho. Como me disse um amigo, parece que chegou o novo Messias! E aí voltamos aos milagres…
Os desafios que se colocam a Obama são enormes. Ele tem não só que reverter a tendência da economia nos Estados Unidos, como melhorar a prestação ambiental resolvendo o problema energético e não afectando a competitividade da indústria, manter o papel de liderança do seu país sem ferir as pretensões dos seus aliados, controlar as potências emergentes, sair do Iraque com um mínimo de dignidade, combater os extremismos, agradar aos seus eleitores e ainda ser o ‘nice guy’ que todos esperamos que olhe para o Terceiro Mundo de forma diferente.
Não podemos esquecer que o poder de qualquer presidente, e em particular nos Estados Unidos da América, não é tão absoluto como se pode pensar. O homem mais poderoso do mundo tem que satisfazer uma infinidade de grupos de pressão, para além de lobbies poderosíssimos como o dos petróleos e o da indústria do armamento. E tem que sobreviver!
Mas o importante desta eleição é que parece que estamos perante alguém que não só é brilhante, mas genuíno nas ideias e posições que defende. Alguém que não parece; à partida, comprometido com os elementos mais nocivos do sistema, mas que, pelo contrário, tem um assinalável percurso de intervenção social. Alguém que herdou uma situação que lhe permite pensar na mudança de uma forma muito mais radical que os seus antecessores, pois existe uma predisposição para tal, dada a gravidade da situação. Alguém que foi eleito, apesar de todos os obstáculos que lhe foram colocados. Apesar dos fantasmas que foram sendo evocados.
O importante desta eleição, foi termos assistido a algo diferente, bom e reconfortante: uma rara vitória do mérito sobre o preconceito.
Uma lição sobre a qual nos cabe reflectir.
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12 de Novembro de 2008 (Jornal de Angola)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Coordenação, Legitimidade e Representatividade nas OSC
O Quê?
O que tenho a dizer está estruturado em quatro partes:
(1) Alguns conceitos. Não propriamente definições ou uma abordagem teórica. Apenas uma introdução sobre o sentido que dou a alguns dos termos.
(2) Realço alguns elementos do nosso ponto de partida. Qual é a nossa realidade actual nestas questões de coordenação, representatividade e legitimidade.
(3) Identifico alguns desafios que me parecem comuns, e preocupantes.
(4) Sugiro sobre possíveis mecanismos para melhorar a coordenação e a criação de estruturas representativas e legítimas, e, por isso, mais eficazes
O significado que dou a algumas destas palavras
Legitimidade é algo relativo. Ninguém tem legitimidade em relação a tudo nem em todos os momentos. A legitimidade pode ser dada pelo quadro legal, por aspectos culturais (por exemplo, muitas vezes considera-se que um mais velho tem mais legitimidade para se pronunciar sobre determinado assunto do que um jovem). Há pois toda uma série de regras na sociedade, que conferem, ou retiram, legitimidade a alguém ou a um grupo, para fazer ou dizer algo. Eu posso ter legimidade para falar como representante de um grupo se esse grupo me tiver dado um mandato para isso. O conhecimento, a experiência, o reconhecimento público, o ter recebido um mandato de alguém, são tudo possíveis fontes de legitimidade. Vamos ver, mais à frente, que temos por vezes problemas com isto, na prática.
Representatividade? Porquê recorrer a mecanismos de representação? Porque o exercício directo dos nossos direitos é, por vezes, difícil. É difícil que todos nós possamos participar em todas as discussões que nos dizem respeito. Uma possível solução é escolhermos alguém que nos represente. A representação permite-nos assim participar de forma indirecta. Participar por interposta pessoa ou organização.
Coordenação? Demasiadas vezes, e erradamente, associada com chefiar e mandar. Infelizmente não se dá suficiente atenção às funções que permitem coordenar: a troca de informação e o concertar da tomada de decisões. Tornar a acção de um conjunto de indivíduos ou de um conjunto de organizações em algo harmonioso, consertado e com um propósito comum.
Sociedade Civil? Não um sector ou um conjunto de organizações. É mais um espaço onde vários tipos de organização se movimentam e vários tipos de interesses se negoceiam. É comum que o Estado (entre nós, em Angola, e noutras paragens) também use actores para agirem no espaço da sociedade civil. Este espaço de negociação é claramente diferente do espaço do Estado ou do mercado.
Como estamos em termos de coordenação, legitimidade e representatividade nas OSC
Temos plataformas que são tratadas como representando outros. Temos, por exemplo, a UNACA (União Nacional das Cooperativas de Angola, creio), uma organização que se apresenta como representando as cooperativas de Angola e, outro exemplo, o FONGA (Forum das Organizações Não Governamentais Angolanas) que se apresenta como representando as ONGs Angolanas. Ambas são tratadas pelos doadores, pelo Estado e por muitos de nós, como representando as cooperativas e as ONGs, respectivamente. Mas, não existem processos activos para garantir que estas organizações de organizações sejam realmente legítimas para a função que dizem ter (entre outras, representar aqueles “sectores”) – são apenas dois exemplos mas poderíamos dar outros. Não se exige sequer que se mantenham os mecanismos para garantir a representatividade dos seus diferentes orgãos. Não há portanto a preocupação que quando estas falam em nome das cooperativas ou das ONGs (mantendo o exemplo), isto resulte de um mandato que lhes tenha sido dado por aqueles conjuntos de organizações (cooperativas e ONGs).
Nós (cidadãos e organizações), raramente nos damos ao trabalho de exigir que nos espaços da sociedade civil onde se negoceia com outros "sectores" (Estado, doadores, privados), estejam indivíduos que representam realmente as organizações da sociedade civil. Por exemplo, os Conselhos de Auscultação e Consertação Social (comunais, municipais ou provinciais), reservam lugares para representantes da sociedade civil. Quem escolhe esses representantes? Normalmente deveriam ser os que são representados a fazer a escolha. Viria daí a representatividade. Mas, muitas vezes, permitimos que a escolha seja feita sem o nosso envolvimento – por passividade, por medo, por falta de tempo que gera um determinado tipo de passividade. Acontece haver "representantes" que se escolhem a si próprios ou serem escolhidos por aqueles com quem negociarão... Raramente exigimos participar no controlo da escolha dessas pessoas que nos representarão e ainda mais raro é controlarmos as posições que eles defenderão ou que resultou dos espaços onde participaram.
Temos também dificuldade em exercer funções de coordenação (na lógica referida acima de troca de informação e facilitação de tomada de decisões). Raramente cooperamos com a função de coordenação. Por exemplo, estando alguém no papel de circular informação, encaminharmos para ela informação e facilitando assim que esta chegue a um grupo alargado. É comum consideramos que o coordenador deve ser o chefe. E, ou o chefe se impõe e obriga cada um a submeter-se à sua autoridade ou não colaboramos com as funções que permitem coordenar a acção conjunta. O que normalmente resulta em cada um puxar para o seu lado. Neste aspecto temos até dificuldade em discutir de forma frontal, sistmática e produtiva, as nossas ideias. Por exemplo, o secretariado do FONGA achou por bem não estar presente na II Conferência da Sociedade Civil e tem regularmente evitado a discussão sobre coordenação com legitimidade e representatividade. Nós aqui na conferência não estamos seguramente de acordo em tudo. Provavelmente estaremos de acordo em algumas coisas. Ou, alguns grupos podem estar de acordo em algumas coisas e em desacordo noutras. A composição destes grupos em torno de um determinado acordo seguramente que muda consoante o tema. Estar presente em espaços, mesmo discordando de muitos dos presentes, é algo a que temos de nos habituar. Ir à luta para defender a nossa perspectiva - sem considerar que os outros são inimigos (ou possuem uma agenda escondida) - é algo que deveria fazer parte da imagem de marca da sociedade civil. Esta cultura é algo que estamos de construir. Este tipo de debate poderá contribui para uma tal construção.
Desafios profundos
Para além do que dissemos acima é também raro que os representantes prestem contas àqueles que representam. Aqueles de onde lhes vem o mandato. Mesmo nas nossas ONGs, embora seja comum termos assembleias de membros ou de associados, é mais comum que a prestação de contas seja feita aos doadores e à UTCAH (Unidade Técnica de Coordenação das Ajudas Humanitárias). Prestam-se contas a quem se entende como tendo poder... Esta cultura parece ser partilhada tanto pela classe política como pela sociedade civil.
Acontece também que após, elegermos alguém, ao longo do exercício do seu mandato os eleitos evoluam para chefes e deixem de necessitar de renovar os seus mandatos. A sua legitimidade passa a vir do seu estatuto de chefes e da sua afirmação como tal. Quer dizer, levantam voo e deixam-nos em terra. Isto poderá estar ligado a um aspecto da nossa cultura política: a preferência por estruturas hierárquicas e autoritárias em vez de estruturas em rede e horizontais. O líder que tente exercer uma função de partilha, facilitação e mobilização de esforços conjuntos tende a ser aquilo que nós chamamos de “abandalhado”. O líder que não for capaz de dar uns murros na mesa, uns bafos e conquistar o seu poder, é visto como um “boélo” que não devia sequer estar naquela posição. Este tipo de cultura, raramente assumida e várias vezes disfarçada por detrás de um discurso de participação e cidadania cria um desafio real à construção de mecanismos de coordenação legitimados e controlados pelo grupo, na base de mandatos claros e limitados, e na representatividade das estruturas.
Surge a pergunta: será que para sermos eficazes devemos, por enquanto, continuar a permitir estes estilos autoritários e hierarquizados e progressivamente irmos desenvolvendo uma cultura diferente? Será que uma lógica em rede, participativa e igualitária, apenas produzirá uma enorme frustração por não chegarmos a lado nenhum e gastarmos toda a energia a lutarmos individualmente por um espaço de afirmação? Parece um desafio central para a sociedade civil angolana (e para a sociedade angolana, no geral). Colocando de uma forma mais crua o dilema é: vamos praticar mais o que defendemos verbalmente ou vamos ter mais preocupação com a eficácia, arriscando algumas concessões em relação à participação e legitimidade? Continuaremos a permitir que os tais líderes autoritários desempenhem o seu papel? Serão eles necessários para que as coisas aconteçam?
Possíveis pistas para melhor coordenação
Sem estruturas fortes e que possam representar o conjunto de interesses e visões da sociedade, teremos dificuldades em sermos ouvidos e sermos eficazes. Sermos ouvidos, e, também, sermos exigentes com o nosso próprio "sector" (auto-regulação), com o governo e com os doadores. Prestarmos contas, mas sermos também competentes a pedir contas, através de estruturas fortes, representativas e legítimas. Um dos princípios de funcionamento de tais estruturas deve ser a renovação dos mandatos dos líderes. Não deixar que ninguém cristalize na liderança.
Um outro princípio é exigir que estas lideranças prestem contas, regularmente, aos membros das suas organizações e às plataformas de organizações. Isto deve ser-lhes exigido, e quando não devidamente cumprido deve ter-se a coragem de retirar o mandato de uns líderes e atribuí-lo a outros. Praticar este jogo nas nossas organizações da sociedade civil é fundamental para o desenvolvimento de uma cultura política mais democrática e realmente assente na participação e cidadania.
Outro princípio fundamental é o de facilitar o acesso à informação. As pessoas nas várias aldeias, das várias partes do país, devem ter acesso a informação sobre o que está a ser discutido e o que está a ser negociado. Isso é a base para poderem desenvolver uma opinião e exigir das suas estruturas (associativas, políticas, ou outras) que cumpram com mandato que lhes for dado. É pois necessário garantir que a informação circule nos dois sentidos. Para além de serem informadas as pessoas devem ter a possibilidade de ser ouvidas e as suas opiniões devem influenciar os espaços onde as decisões são negociadas e tomadas.
Possíveis critérios para construir estruturas nessa lógica poderiam incluir: (1) o critério geográfico – garantir que as pessoas de todo o território tenham uma chance de participar e (2) o critério temático – garantir que os que trabalhem ou se interessem pelos diferentes temas (criança, HIV-SIDA, segurança alimentar, direitos humanos, etc) tenham a possibilidade de fazer ouvir as suas experiências, soluções e prioridades. Como cruzar estes dois critérios? Como garantir que as nossas plataformas e mecanismos de auscultação e concertação, tenham esta representatividade e abrangência?
Mas, em todas estas estruturas, mecanismos ou processos, estará sempre presente o dilema já referido: que equilíbrio entre a lógica do funcionamento em rede – onde não há hierarquia e onde pode existir um vazio de liderança - e um funcionamento na base de lideranças que empurrem e façam as coisas acontecer? Que equilibrio entre a lógica de rede e a lógica hierárquica?
O que tenho a dizer está estruturado em quatro partes:
(1) Alguns conceitos. Não propriamente definições ou uma abordagem teórica. Apenas uma introdução sobre o sentido que dou a alguns dos termos.
(2) Realço alguns elementos do nosso ponto de partida. Qual é a nossa realidade actual nestas questões de coordenação, representatividade e legitimidade.
(3) Identifico alguns desafios que me parecem comuns, e preocupantes.
(4) Sugiro sobre possíveis mecanismos para melhorar a coordenação e a criação de estruturas representativas e legítimas, e, por isso, mais eficazes
O significado que dou a algumas destas palavras
Legitimidade é algo relativo. Ninguém tem legitimidade em relação a tudo nem em todos os momentos. A legitimidade pode ser dada pelo quadro legal, por aspectos culturais (por exemplo, muitas vezes considera-se que um mais velho tem mais legitimidade para se pronunciar sobre determinado assunto do que um jovem). Há pois toda uma série de regras na sociedade, que conferem, ou retiram, legitimidade a alguém ou a um grupo, para fazer ou dizer algo. Eu posso ter legimidade para falar como representante de um grupo se esse grupo me tiver dado um mandato para isso. O conhecimento, a experiência, o reconhecimento público, o ter recebido um mandato de alguém, são tudo possíveis fontes de legitimidade. Vamos ver, mais à frente, que temos por vezes problemas com isto, na prática.
Representatividade? Porquê recorrer a mecanismos de representação? Porque o exercício directo dos nossos direitos é, por vezes, difícil. É difícil que todos nós possamos participar em todas as discussões que nos dizem respeito. Uma possível solução é escolhermos alguém que nos represente. A representação permite-nos assim participar de forma indirecta. Participar por interposta pessoa ou organização.
Coordenação? Demasiadas vezes, e erradamente, associada com chefiar e mandar. Infelizmente não se dá suficiente atenção às funções que permitem coordenar: a troca de informação e o concertar da tomada de decisões. Tornar a acção de um conjunto de indivíduos ou de um conjunto de organizações em algo harmonioso, consertado e com um propósito comum.
Sociedade Civil? Não um sector ou um conjunto de organizações. É mais um espaço onde vários tipos de organização se movimentam e vários tipos de interesses se negoceiam. É comum que o Estado (entre nós, em Angola, e noutras paragens) também use actores para agirem no espaço da sociedade civil. Este espaço de negociação é claramente diferente do espaço do Estado ou do mercado.
Como estamos em termos de coordenação, legitimidade e representatividade nas OSC
Temos plataformas que são tratadas como representando outros. Temos, por exemplo, a UNACA (União Nacional das Cooperativas de Angola, creio), uma organização que se apresenta como representando as cooperativas de Angola e, outro exemplo, o FONGA (Forum das Organizações Não Governamentais Angolanas) que se apresenta como representando as ONGs Angolanas. Ambas são tratadas pelos doadores, pelo Estado e por muitos de nós, como representando as cooperativas e as ONGs, respectivamente. Mas, não existem processos activos para garantir que estas organizações de organizações sejam realmente legítimas para a função que dizem ter (entre outras, representar aqueles “sectores”) – são apenas dois exemplos mas poderíamos dar outros. Não se exige sequer que se mantenham os mecanismos para garantir a representatividade dos seus diferentes orgãos. Não há portanto a preocupação que quando estas falam em nome das cooperativas ou das ONGs (mantendo o exemplo), isto resulte de um mandato que lhes tenha sido dado por aqueles conjuntos de organizações (cooperativas e ONGs).
Nós (cidadãos e organizações), raramente nos damos ao trabalho de exigir que nos espaços da sociedade civil onde se negoceia com outros "sectores" (Estado, doadores, privados), estejam indivíduos que representam realmente as organizações da sociedade civil. Por exemplo, os Conselhos de Auscultação e Consertação Social (comunais, municipais ou provinciais), reservam lugares para representantes da sociedade civil. Quem escolhe esses representantes? Normalmente deveriam ser os que são representados a fazer a escolha. Viria daí a representatividade. Mas, muitas vezes, permitimos que a escolha seja feita sem o nosso envolvimento – por passividade, por medo, por falta de tempo que gera um determinado tipo de passividade. Acontece haver "representantes" que se escolhem a si próprios ou serem escolhidos por aqueles com quem negociarão... Raramente exigimos participar no controlo da escolha dessas pessoas que nos representarão e ainda mais raro é controlarmos as posições que eles defenderão ou que resultou dos espaços onde participaram.
Temos também dificuldade em exercer funções de coordenação (na lógica referida acima de troca de informação e facilitação de tomada de decisões). Raramente cooperamos com a função de coordenação. Por exemplo, estando alguém no papel de circular informação, encaminharmos para ela informação e facilitando assim que esta chegue a um grupo alargado. É comum consideramos que o coordenador deve ser o chefe. E, ou o chefe se impõe e obriga cada um a submeter-se à sua autoridade ou não colaboramos com as funções que permitem coordenar a acção conjunta. O que normalmente resulta em cada um puxar para o seu lado. Neste aspecto temos até dificuldade em discutir de forma frontal, sistmática e produtiva, as nossas ideias. Por exemplo, o secretariado do FONGA achou por bem não estar presente na II Conferência da Sociedade Civil e tem regularmente evitado a discussão sobre coordenação com legitimidade e representatividade. Nós aqui na conferência não estamos seguramente de acordo em tudo. Provavelmente estaremos de acordo em algumas coisas. Ou, alguns grupos podem estar de acordo em algumas coisas e em desacordo noutras. A composição destes grupos em torno de um determinado acordo seguramente que muda consoante o tema. Estar presente em espaços, mesmo discordando de muitos dos presentes, é algo a que temos de nos habituar. Ir à luta para defender a nossa perspectiva - sem considerar que os outros são inimigos (ou possuem uma agenda escondida) - é algo que deveria fazer parte da imagem de marca da sociedade civil. Esta cultura é algo que estamos de construir. Este tipo de debate poderá contribui para uma tal construção.
Desafios profundos
Para além do que dissemos acima é também raro que os representantes prestem contas àqueles que representam. Aqueles de onde lhes vem o mandato. Mesmo nas nossas ONGs, embora seja comum termos assembleias de membros ou de associados, é mais comum que a prestação de contas seja feita aos doadores e à UTCAH (Unidade Técnica de Coordenação das Ajudas Humanitárias). Prestam-se contas a quem se entende como tendo poder... Esta cultura parece ser partilhada tanto pela classe política como pela sociedade civil.
Acontece também que após, elegermos alguém, ao longo do exercício do seu mandato os eleitos evoluam para chefes e deixem de necessitar de renovar os seus mandatos. A sua legitimidade passa a vir do seu estatuto de chefes e da sua afirmação como tal. Quer dizer, levantam voo e deixam-nos em terra. Isto poderá estar ligado a um aspecto da nossa cultura política: a preferência por estruturas hierárquicas e autoritárias em vez de estruturas em rede e horizontais. O líder que tente exercer uma função de partilha, facilitação e mobilização de esforços conjuntos tende a ser aquilo que nós chamamos de “abandalhado”. O líder que não for capaz de dar uns murros na mesa, uns bafos e conquistar o seu poder, é visto como um “boélo” que não devia sequer estar naquela posição. Este tipo de cultura, raramente assumida e várias vezes disfarçada por detrás de um discurso de participação e cidadania cria um desafio real à construção de mecanismos de coordenação legitimados e controlados pelo grupo, na base de mandatos claros e limitados, e na representatividade das estruturas.
Surge a pergunta: será que para sermos eficazes devemos, por enquanto, continuar a permitir estes estilos autoritários e hierarquizados e progressivamente irmos desenvolvendo uma cultura diferente? Será que uma lógica em rede, participativa e igualitária, apenas produzirá uma enorme frustração por não chegarmos a lado nenhum e gastarmos toda a energia a lutarmos individualmente por um espaço de afirmação? Parece um desafio central para a sociedade civil angolana (e para a sociedade angolana, no geral). Colocando de uma forma mais crua o dilema é: vamos praticar mais o que defendemos verbalmente ou vamos ter mais preocupação com a eficácia, arriscando algumas concessões em relação à participação e legitimidade? Continuaremos a permitir que os tais líderes autoritários desempenhem o seu papel? Serão eles necessários para que as coisas aconteçam?
Possíveis pistas para melhor coordenação
Sem estruturas fortes e que possam representar o conjunto de interesses e visões da sociedade, teremos dificuldades em sermos ouvidos e sermos eficazes. Sermos ouvidos, e, também, sermos exigentes com o nosso próprio "sector" (auto-regulação), com o governo e com os doadores. Prestarmos contas, mas sermos também competentes a pedir contas, através de estruturas fortes, representativas e legítimas. Um dos princípios de funcionamento de tais estruturas deve ser a renovação dos mandatos dos líderes. Não deixar que ninguém cristalize na liderança.
Um outro princípio é exigir que estas lideranças prestem contas, regularmente, aos membros das suas organizações e às plataformas de organizações. Isto deve ser-lhes exigido, e quando não devidamente cumprido deve ter-se a coragem de retirar o mandato de uns líderes e atribuí-lo a outros. Praticar este jogo nas nossas organizações da sociedade civil é fundamental para o desenvolvimento de uma cultura política mais democrática e realmente assente na participação e cidadania.
Outro princípio fundamental é o de facilitar o acesso à informação. As pessoas nas várias aldeias, das várias partes do país, devem ter acesso a informação sobre o que está a ser discutido e o que está a ser negociado. Isso é a base para poderem desenvolver uma opinião e exigir das suas estruturas (associativas, políticas, ou outras) que cumpram com mandato que lhes for dado. É pois necessário garantir que a informação circule nos dois sentidos. Para além de serem informadas as pessoas devem ter a possibilidade de ser ouvidas e as suas opiniões devem influenciar os espaços onde as decisões são negociadas e tomadas.
Possíveis critérios para construir estruturas nessa lógica poderiam incluir: (1) o critério geográfico – garantir que as pessoas de todo o território tenham uma chance de participar e (2) o critério temático – garantir que os que trabalhem ou se interessem pelos diferentes temas (criança, HIV-SIDA, segurança alimentar, direitos humanos, etc) tenham a possibilidade de fazer ouvir as suas experiências, soluções e prioridades. Como cruzar estes dois critérios? Como garantir que as nossas plataformas e mecanismos de auscultação e concertação, tenham esta representatividade e abrangência?
Mas, em todas estas estruturas, mecanismos ou processos, estará sempre presente o dilema já referido: que equilíbrio entre a lógica do funcionamento em rede – onde não há hierarquia e onde pode existir um vazio de liderança - e um funcionamento na base de lideranças que empurrem e façam as coisas acontecer? Que equilibrio entre a lógica de rede e a lógica hierárquica?
domingo, 9 de novembro de 2008
O Taxista
No caos que é o trânsito na nossa cidade, temos necessidade de encontrar um culpado. Somos tentados a atribuir papéis, nessa história diariamente sofrida por quem tem que percorrer as artérias entupidas desta nossa urbe. E, se é claro que o bom da fita somos normalmente nós, o papel de vilão é normalmente atribuído ao taxista, vulgo, candongueiro.
Os candongueiros, e as suas máquinas infernais, os azulinhos ‘hiaces’ ou, os menos afortunados, ‘starletes’. Os que aparecem por todos os lados, são os primeiros a formar uma fila a mais onde já não há lugar para mais nenhum carro, e provocam, tão frequentemente, o colapso na circulação, pois seguem religiosamente o moto de que a vida não pode parar, mas esquecem que, muitas das vezes, para que não se pare é preciso andar devagar, e garantir que todos andem. Acabamos por diabolizar esses jovens, que é raro estarem satisfatoriamente encartados, e que têm sobre os seus ombros a responsabilidade de fazer chegar ao seu destino uma percentagem elevadíssima da nossa população trabalhadora, ganhar o máximo para poder retirar o seu e dar o valor fixo ao patrão, e resistir às enormes pressões impostas pela cidade, pelo trânsito que ajudam a complicar, pelos agentes que os ‘penteam’.
Numa urbe sem um sistema de transportes públicos minimamente eficaz, são os ‘azulinhos’ que garantem que a cidade funcione. Eles são o nosso metropolitano, e, na sua aparente indisciplina, é de reconhecer uma assinalável capacidade de cumprir com algumas regras auto-impostas, como é o caso de apresentarem, regra geral, as viaturas limpas e cuidadas, e proporcionarem um tratamento aceitável aos seus clientes. Têm um espírito corporativo já por várias vezes demonstrado nas acções reivindicativas e de solidariedade que desenvolveram. E isso dá-nos a esperança que mesmo os comportamentos negativos que apresentam, como é a flagrante indisciplina no trânsito, possam ser eliminados se houver um maior acompanhamento da classe, um tratamento com mais justiça (e isso significa punir quando assim se justificar, mas não agredir nem explorar sem razão), se algumas regras do jogo forem mais claras, nomeadamente as ligadas ao processo de legalização da sua actividade, e se a polícia desempenhar o seu papel com rigor e de forma isenta.
Habituado a ver-lhe atribuído o retrato do vilão em qualquer conversa em que o taxista tem algum protagonismo, não deixou de ser uma surpresa agradável ver o reconhecimento por parte de várias pessoas, de um papel positivo, e uma postura humana e sensível de taxistas em várias ocasiões. Houve quem contasse o episódio da senhora que, num imprevisto, a família ‘esqueceu’ no Rocha Pinto, e como um taxista a retirou de uma situação que se complicava com a aproximação de um gang de jovens delinquentes, levando-a, sã e salva para junto dos seus. Ou como o taxista na estrada Luanda-Sumbe, decidiu acudir às vítimas de um acidente, que os outros automobilistas ignoravam, pedindo aos passageiros para esperarem enquanto ele fazia mais de 300 km para levar os feridos ao Hospital de Porto Amboim e regressar, para prosseguir viagem para Luanda. Ou como o dono do Discovery que de repente decidiu parar, e que olhava como um boi para um palácio para o motor, de capot aberto, à beira da estrada, no meio do nada, foi surpreendido pelo taxista que parou, e decidiu dar uma ajuda, encontrando uma solução, pois até já tinha sido mecânico na União. Ou sobre o tratamento privilegiado ao senhor engravatado cuja viatura avariou e que precisava de chegar à reunião importante. E daí, em catadupa, surgiram outras histórias e elogios. A predisposição para parar para que os transeuntes, em particular os mais velhos e crianças, atravessem a estrada. A organização em grupos de táxis, que negoceiam os contratos de serviços (muito requisitados, por exemplo, na altura das eleições), e que têm um fundo de ajuda comum, tipo seguro para situações de crise. Enfim, a sua capacidade de inter-ajuda, e de organização.
Os taxistas prestam um serviço público fundamental à cidade de Luanda. Têm que ser vistos como uma parte importante do seu funcionamento e assim serem acompanhados, acarinhados e, naturalmente, disciplinados.
Madrugadores, são trabalhadores claramente motivados e eficazes. É preciso que eles deixem de ser parte do problema e passem a ser, definitivamente, parte da solução.
Os candongueiros, e as suas máquinas infernais, os azulinhos ‘hiaces’ ou, os menos afortunados, ‘starletes’. Os que aparecem por todos os lados, são os primeiros a formar uma fila a mais onde já não há lugar para mais nenhum carro, e provocam, tão frequentemente, o colapso na circulação, pois seguem religiosamente o moto de que a vida não pode parar, mas esquecem que, muitas das vezes, para que não se pare é preciso andar devagar, e garantir que todos andem. Acabamos por diabolizar esses jovens, que é raro estarem satisfatoriamente encartados, e que têm sobre os seus ombros a responsabilidade de fazer chegar ao seu destino uma percentagem elevadíssima da nossa população trabalhadora, ganhar o máximo para poder retirar o seu e dar o valor fixo ao patrão, e resistir às enormes pressões impostas pela cidade, pelo trânsito que ajudam a complicar, pelos agentes que os ‘penteam’.
Numa urbe sem um sistema de transportes públicos minimamente eficaz, são os ‘azulinhos’ que garantem que a cidade funcione. Eles são o nosso metropolitano, e, na sua aparente indisciplina, é de reconhecer uma assinalável capacidade de cumprir com algumas regras auto-impostas, como é o caso de apresentarem, regra geral, as viaturas limpas e cuidadas, e proporcionarem um tratamento aceitável aos seus clientes. Têm um espírito corporativo já por várias vezes demonstrado nas acções reivindicativas e de solidariedade que desenvolveram. E isso dá-nos a esperança que mesmo os comportamentos negativos que apresentam, como é a flagrante indisciplina no trânsito, possam ser eliminados se houver um maior acompanhamento da classe, um tratamento com mais justiça (e isso significa punir quando assim se justificar, mas não agredir nem explorar sem razão), se algumas regras do jogo forem mais claras, nomeadamente as ligadas ao processo de legalização da sua actividade, e se a polícia desempenhar o seu papel com rigor e de forma isenta.
Habituado a ver-lhe atribuído o retrato do vilão em qualquer conversa em que o taxista tem algum protagonismo, não deixou de ser uma surpresa agradável ver o reconhecimento por parte de várias pessoas, de um papel positivo, e uma postura humana e sensível de taxistas em várias ocasiões. Houve quem contasse o episódio da senhora que, num imprevisto, a família ‘esqueceu’ no Rocha Pinto, e como um taxista a retirou de uma situação que se complicava com a aproximação de um gang de jovens delinquentes, levando-a, sã e salva para junto dos seus. Ou como o taxista na estrada Luanda-Sumbe, decidiu acudir às vítimas de um acidente, que os outros automobilistas ignoravam, pedindo aos passageiros para esperarem enquanto ele fazia mais de 300 km para levar os feridos ao Hospital de Porto Amboim e regressar, para prosseguir viagem para Luanda. Ou como o dono do Discovery que de repente decidiu parar, e que olhava como um boi para um palácio para o motor, de capot aberto, à beira da estrada, no meio do nada, foi surpreendido pelo taxista que parou, e decidiu dar uma ajuda, encontrando uma solução, pois até já tinha sido mecânico na União. Ou sobre o tratamento privilegiado ao senhor engravatado cuja viatura avariou e que precisava de chegar à reunião importante. E daí, em catadupa, surgiram outras histórias e elogios. A predisposição para parar para que os transeuntes, em particular os mais velhos e crianças, atravessem a estrada. A organização em grupos de táxis, que negoceiam os contratos de serviços (muito requisitados, por exemplo, na altura das eleições), e que têm um fundo de ajuda comum, tipo seguro para situações de crise. Enfim, a sua capacidade de inter-ajuda, e de organização.
Os taxistas prestam um serviço público fundamental à cidade de Luanda. Têm que ser vistos como uma parte importante do seu funcionamento e assim serem acompanhados, acarinhados e, naturalmente, disciplinados.
Madrugadores, são trabalhadores claramente motivados e eficazes. É preciso que eles deixem de ser parte do problema e passem a ser, definitivamente, parte da solução.
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2 de Novembro de 2008 (Jornal de Angola)
domingo, 12 de outubro de 2008
Jornalismo, censura, propaganda e o OPSA
“O sopro vital do regime democrático é a Informação”. A afirmação do Jornal de Angola, com a qual estou completamente de acordo, num editorial dedicado ao Observatório Político Social de Angola (OPSA) a propósito de uma reflexão sobre as eleições. Pela leitura do jornal, e infelizmente não me refiro apenas a este editorial, rapidamente se verifica que não temos o mesmo entendimento sobre o que significa esse “sopro vital”. Estará o desacordo ao nível dos conceitos? Mesmo não sendo uma autoridade em comunicação, creio que o tal editorial não dá informação (não publica sequer excertos da reflexão do OPSA) nem se pode dizer que seja verdadeiramente uma peça de opinião. É verdade que tem muitos adjectivos e que fala de neofascismo e da luta contra os sul-africanos, um pouco a despropósito…
A propósito, não resisto a contar aquela anedota do camponês internado num hospital. Na ronda que fez à enfermaria, o médico, apressadamente, diagnosticou o falecimento do homem (que estaria talvez desmaiado e com o pulso muito fraco…). Quando, um pouco mais tarde, a enfermeira ia transportar o senhor para a morgue este, já reanimado, protestou dizendo que estava vivo. A enfermeira retorquiu indignada: Você estudou medicina? Quem é você para questionar o que disse o doutor?
Não sou especialista em comunicação mas sinto-me com direito a ter opinião. Não vejo razão para me calar perante um erro evidente de um doutor, em comunicação ou medicina. E uma das coisas boas que trouxe a internet foi a democratização no acesso ao conhecimento. A propósito, dei uma vista de olhos à Wikipedia, enciclopédia de acesso livre na Internet, fazendo buscas com as palavras-chave relacionadas com o editorial que me inspirou estas linhas: jornalismo, censura, propaganda, neofascismo e monitoria dos media. Nos parágrafos seguintes as partes em itálico são transcrições do que está na Wikipedia.
Jornalismo consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. … prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos actuais.
Censura relaciona-se com controlar e impedir a liberdade de expressão. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão... com o propósito de manter o status quo, evitando alterações de pensamento …. A censura procura também evitar que certos conflitos e discussões se estabeleçam. Uma forma moderna de censura prende-se com o acesso aos meios de comunicação e também com as entidades reguladoras (que atribuem alvarás de rádio e televisão), ou com critérios editoriais discricionários (por exemplo um jornal não publicar uma determinada notícia) [sublinhado por mim]. Por detrás da censura pode também estar uma visão que infantiliza o público, considerado como incapaz de pensar por si próprio. O uso quotidiano da censura promove … a auto-censura, onde os produtores culturais e formadores de opinião evitam tratar de questões conflitivas e divergentes.
Propaganda é um modo específico de se apresentar uma informação, com o objectivo de servir uma agenda. … não apresentando um quadro completo e balanceado do objecto em questão. Seu uso primário advém de contexto político, referindo-se geralmente aos esforços patrocinados por governos e partidos políticos.
Vou-vos poupar a transcrever o texto sobre neofascimo e sobre monitoria dos media. Garanto-vos que o documento de reflexão produzido pelo OPSA (que podem ler no Cruzeiro do Sul) nada tem que ver com neofascismo, e que monitoria dos media também não tem relação com censura… refere-se a observar matérias publicadas (enquanto a censura filtra para não se publicar). No entendimento do Jornal de Angola a monitoria promove a autocensura no seio dos jornalistas. Coisa que o JA não tolera...
Não é a Wikipedia ou a internet que cria estes conceitos. E mesmo que fosse, podíamos discutir se correspondem ao nosso entendimento de cada um deles. Até seria possível ir ao site, na internet, e alterar o conteúdo - sinto falta deste nível de abertura na troca de informação e conhecimento, e de debate sem insultos. Estou razoavelmente de acordo com a forma como estão expressos aqueles conceitos (jornalismo, censura, propaganda, etc) na Wikipedia. Por vezes até dá a ideia de que estão a falar de nós... Será que quem escreveu o referido editorial, no JA – editorial que devia ser de leitura obrigatória para os que estão a estudar jornalismo -, tem o mesmo entendimento? E conseguirá agir de acordo com esse entendimento? Tenho curiosidade em saber.
A reclamação, ou crítica, para que o JA ofereça mais jornalismo e, por isso, esteja mais ao abrigo de práticas de censura ou de propaganda, deve unir o público e os profissionais que lá trabalham. Por isso o editorialista do JA não devia ver como inimigos os que reclamam por evolução no nosso jornalismo. Todos teremos muito a ganhar com essa evolução.
A propósito, não resisto a contar aquela anedota do camponês internado num hospital. Na ronda que fez à enfermaria, o médico, apressadamente, diagnosticou o falecimento do homem (que estaria talvez desmaiado e com o pulso muito fraco…). Quando, um pouco mais tarde, a enfermeira ia transportar o senhor para a morgue este, já reanimado, protestou dizendo que estava vivo. A enfermeira retorquiu indignada: Você estudou medicina? Quem é você para questionar o que disse o doutor?
Não sou especialista em comunicação mas sinto-me com direito a ter opinião. Não vejo razão para me calar perante um erro evidente de um doutor, em comunicação ou medicina. E uma das coisas boas que trouxe a internet foi a democratização no acesso ao conhecimento. A propósito, dei uma vista de olhos à Wikipedia, enciclopédia de acesso livre na Internet, fazendo buscas com as palavras-chave relacionadas com o editorial que me inspirou estas linhas: jornalismo, censura, propaganda, neofascismo e monitoria dos media. Nos parágrafos seguintes as partes em itálico são transcrições do que está na Wikipedia.
Jornalismo consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. … prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos actuais.
Censura relaciona-se com controlar e impedir a liberdade de expressão. No sentido moderno, a censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão... com o propósito de manter o status quo, evitando alterações de pensamento …. A censura procura também evitar que certos conflitos e discussões se estabeleçam. Uma forma moderna de censura prende-se com o acesso aos meios de comunicação e também com as entidades reguladoras (que atribuem alvarás de rádio e televisão), ou com critérios editoriais discricionários (por exemplo um jornal não publicar uma determinada notícia) [sublinhado por mim]. Por detrás da censura pode também estar uma visão que infantiliza o público, considerado como incapaz de pensar por si próprio. O uso quotidiano da censura promove … a auto-censura, onde os produtores culturais e formadores de opinião evitam tratar de questões conflitivas e divergentes.
Propaganda é um modo específico de se apresentar uma informação, com o objectivo de servir uma agenda. … não apresentando um quadro completo e balanceado do objecto em questão. Seu uso primário advém de contexto político, referindo-se geralmente aos esforços patrocinados por governos e partidos políticos.
Vou-vos poupar a transcrever o texto sobre neofascimo e sobre monitoria dos media. Garanto-vos que o documento de reflexão produzido pelo OPSA (que podem ler no Cruzeiro do Sul) nada tem que ver com neofascismo, e que monitoria dos media também não tem relação com censura… refere-se a observar matérias publicadas (enquanto a censura filtra para não se publicar). No entendimento do Jornal de Angola a monitoria promove a autocensura no seio dos jornalistas. Coisa que o JA não tolera...
Não é a Wikipedia ou a internet que cria estes conceitos. E mesmo que fosse, podíamos discutir se correspondem ao nosso entendimento de cada um deles. Até seria possível ir ao site, na internet, e alterar o conteúdo - sinto falta deste nível de abertura na troca de informação e conhecimento, e de debate sem insultos. Estou razoavelmente de acordo com a forma como estão expressos aqueles conceitos (jornalismo, censura, propaganda, etc) na Wikipedia. Por vezes até dá a ideia de que estão a falar de nós... Será que quem escreveu o referido editorial, no JA – editorial que devia ser de leitura obrigatória para os que estão a estudar jornalismo -, tem o mesmo entendimento? E conseguirá agir de acordo com esse entendimento? Tenho curiosidade em saber.
A reclamação, ou crítica, para que o JA ofereça mais jornalismo e, por isso, esteja mais ao abrigo de práticas de censura ou de propaganda, deve unir o público e os profissionais que lá trabalham. Por isso o editorialista do JA não devia ver como inimigos os que reclamam por evolução no nosso jornalismo. Todos teremos muito a ganhar com essa evolução.
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9 Outubro 2008 (no Cruzeiro do Sul)
sábado, 4 de outubro de 2008
O salvamento
No dia do juízo final não terei muito para apresentar a meu favor, no que toca a ter salvo vidas. Talvez por isso eu tenda a não acreditar que venha a ter de enfrentar realmente um dia do juízo final. Se tiver, paciência, lá estarei para justificar a minha descrença (argumentarei que não se acredita no que se quer, e que por isso não se deve punir a descrença). Vou ter também de justificar ter salvo tão poucas vidas, quando até vivo num país onde, infelizmente, não me devem ter faltado oportunidades para salvar vidas.
Salvei poucas vidas, mas recordo-me de uma salvação que foi dura e onde devido à minha firmeza uma vida foi preservada. Cheguei a casa à noite, depois de um dia de trabalho cansativo, e de um trânsito ainda mais cansativo, e encontrei os meus dois cães extremamente agitados e a morderem um gatinho que estava metido dentro de uma grade por onde a cabeça dele não passava mas com uma boa parte do corpo do lado do fora, puxado pelos cães. Nunca tinha visto os meus cães tão excitados. Pareciam verdadeiras feras, selvagens e perigosas, não fosse o facto de serem caniches… O mais pequeno, a fêmea, mais parecia o resultado do cruzamento de caniche com rato!
Consegui que os meus cães se afastassem do pobre gatinho que se abrigou num local da grade que estava fora do alcance dos cachorros. Abrigar-se, talvez não seja a palavra mais adequada pois, na realidade, ficou encurralado adiando apenas a festa que os meus cachorros queriam insistentemente recomeçar.
Como estava claro que mal eu me afastasse os cães iam voltar a uma atitude pouco civilizada e pouco hospitaleira (eles sentiam-se proprietários da casa, principalmente do quintal), e acabar por matar o gatinho, decidi terminar o salvamento (eu, que estava, mais uma vez, com vontade de deixar a obra a meio).
A muito custo consegui agarrar no animal com cuidado, para não o magoar, não imaginando que ele me ia cravar os dentes afiados no meu dedo indicador. Foi um choque ver a cravarem-me os dentes, exactamente quem eu estava a ajudar por estar preocupado com o seu estado miserável! Este episódio preparou-me para algo que me viria a acontecer mais tarde com o FONGA, mas isso é história para outro dia. Uma história onde, aliás, nem um dedo feri.
Só com a ajuda do guarda é que consegui que o gato descravasse os dentes do meu dedo. Se tivesse puxado o dedo, para o soltar da boca do gato, teria rasgado a pele e a carne onde os dentes estavam profundamente enterrados. Como me mantive focado no meu objectivo quase não reparei os furos por onde sangrei abundantemente, mas não por muito tempo.
Durante alguns minutos tentei acalmar o gato dando-lhe água e leite, para conquistar a sua confiança. Sempre a agarrá-lo pela parte trazeira do pescoço, para ele não voltar a morder-me. Coisa que tentava sempre fazer. Acabei por desistir, abandonando o gato, e a possibilidade de nos entendermos. Juro que nem sequer esperava que ele sentisse gratidão. Deixei-o a salvo dos cães e fui tratar de mim fazendo o curativo ao meu dedo. Reconheci com alguma tristeza que não iamos chegar nunca a uma situação em que tivessemos, eu e o gato, o mesmo entendimento da situação que para mim parecia evidente e sem margem para interpretações. Ele estava numa situação desgraçada e eu não tinha nenhum interesse no caso a não ser vê-lo sair daquela posição. Desisti. E não foi a única vez em que desisti de tentar comunicar por sentir uma barreira na comunicação, mais forte que a minha convicção que valia a pena quebrá-la…
Enfim, dormi com um dedo magoado, dois cães sem entenderem porque lhes interrompi o divertimento – ainda por cima em defesa de um estranho que nem sequer era da casa -, e com a família sem entender porque me fui magoar e arriscar a apanhar raiva ou tétano. Mas dormi com a sensação que tinha aprendido algo, por experiência directa. Não sei se o facto de ter salvo aquela vida, e o conhecimento que ganhei com a experiência, me aproximou ou afastou do céu (o tal do juízo final), mas senti que tinha feito a coisa certa. Dormi com a sensação como se fosse um pequeno herói. Herói incompreendido mas, mesmo isso, soube-me ligeiramente bem…
Salvei poucas vidas, mas recordo-me de uma salvação que foi dura e onde devido à minha firmeza uma vida foi preservada. Cheguei a casa à noite, depois de um dia de trabalho cansativo, e de um trânsito ainda mais cansativo, e encontrei os meus dois cães extremamente agitados e a morderem um gatinho que estava metido dentro de uma grade por onde a cabeça dele não passava mas com uma boa parte do corpo do lado do fora, puxado pelos cães. Nunca tinha visto os meus cães tão excitados. Pareciam verdadeiras feras, selvagens e perigosas, não fosse o facto de serem caniches… O mais pequeno, a fêmea, mais parecia o resultado do cruzamento de caniche com rato!
Consegui que os meus cães se afastassem do pobre gatinho que se abrigou num local da grade que estava fora do alcance dos cachorros. Abrigar-se, talvez não seja a palavra mais adequada pois, na realidade, ficou encurralado adiando apenas a festa que os meus cachorros queriam insistentemente recomeçar.
Como estava claro que mal eu me afastasse os cães iam voltar a uma atitude pouco civilizada e pouco hospitaleira (eles sentiam-se proprietários da casa, principalmente do quintal), e acabar por matar o gatinho, decidi terminar o salvamento (eu, que estava, mais uma vez, com vontade de deixar a obra a meio).
A muito custo consegui agarrar no animal com cuidado, para não o magoar, não imaginando que ele me ia cravar os dentes afiados no meu dedo indicador. Foi um choque ver a cravarem-me os dentes, exactamente quem eu estava a ajudar por estar preocupado com o seu estado miserável! Este episódio preparou-me para algo que me viria a acontecer mais tarde com o FONGA, mas isso é história para outro dia. Uma história onde, aliás, nem um dedo feri.
Só com a ajuda do guarda é que consegui que o gato descravasse os dentes do meu dedo. Se tivesse puxado o dedo, para o soltar da boca do gato, teria rasgado a pele e a carne onde os dentes estavam profundamente enterrados. Como me mantive focado no meu objectivo quase não reparei os furos por onde sangrei abundantemente, mas não por muito tempo.
Durante alguns minutos tentei acalmar o gato dando-lhe água e leite, para conquistar a sua confiança. Sempre a agarrá-lo pela parte trazeira do pescoço, para ele não voltar a morder-me. Coisa que tentava sempre fazer. Acabei por desistir, abandonando o gato, e a possibilidade de nos entendermos. Juro que nem sequer esperava que ele sentisse gratidão. Deixei-o a salvo dos cães e fui tratar de mim fazendo o curativo ao meu dedo. Reconheci com alguma tristeza que não iamos chegar nunca a uma situação em que tivessemos, eu e o gato, o mesmo entendimento da situação que para mim parecia evidente e sem margem para interpretações. Ele estava numa situação desgraçada e eu não tinha nenhum interesse no caso a não ser vê-lo sair daquela posição. Desisti. E não foi a única vez em que desisti de tentar comunicar por sentir uma barreira na comunicação, mais forte que a minha convicção que valia a pena quebrá-la…
Enfim, dormi com um dedo magoado, dois cães sem entenderem porque lhes interrompi o divertimento – ainda por cima em defesa de um estranho que nem sequer era da casa -, e com a família sem entender porque me fui magoar e arriscar a apanhar raiva ou tétano. Mas dormi com a sensação que tinha aprendido algo, por experiência directa. Não sei se o facto de ter salvo aquela vida, e o conhecimento que ganhei com a experiência, me aproximou ou afastou do céu (o tal do juízo final), mas senti que tinha feito a coisa certa. Dormi com a sensação como se fosse um pequeno herói. Herói incompreendido mas, mesmo isso, soube-me ligeiramente bem…
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2 Outubro 2008 (no Cruzeiro do Sul)
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
O nosso desenvolvimento
Seremos um país atrasado? Com base em que padrões? E se formos? Tiramos algum proveito de falar sobre isso ou é melhor camuflar o nosso estado real com construções vistosas?
Creio que muitos de nós vive na negação, em relação ao nosso real estado de desenvolvimento. Um pouco como o indivíduo que foi pobre e que depois de aumentar os seus rendimentos, esconde por vergonha as suas origens. Eu gosto dos que assumem de onde vieram e que pelo seu trajecto mostram que tudo pode ser transformado.
Atraem-me uma série de questões, que me parecem merecer discussão: (1) O que significa isso de atraso/desenvolvimento? (2) Que critérios são os mais apropriados para "medir" o atraso / desenvolvimento? (3) Quem é que pode, ou deve, medir e avaliar o nosso atraso/desenvolvimento? (4) Em que direcção como país, e cada um de nós como indivíduo, estamos a evoluir?Sejam quais forem as respostas, uma coisa é certa, o estado de desenvolvimento / atraso dos países ou de um indivíduo é algo dinâmico. O estado de desenvolvimento é algo que tem de ser cultivado, como as plantas, sob o risco de se regredir e perder os avanços conseguidos. Progredir e regredir em relação a quê? Eu diria que a possibilidade de escolher é o que melhor integra as várias possibilidades do desenvolvimento. Quem tem mais conhecimento (conhecimento tecnológico mas, também, sabedoria), quem tem mais recursos e riqueza, quem tem mais poder tem normalmente maior poder de escolha. Esta poderia ser uma boa de resposta à questão sobre o que significa desenvolvimento. Assim, quem vive dependente pela pobreza, limitado pela ignorância, ou coagido nos seus movimentos ou na sua liberdade de expressão, vive num estado menos desenvolvido do que aquele que pode optar sobre o que vai consumir, ou fazer, ou sobre o que dizer.
Talvez seja de distinguir entre a capacidade de escolha como grupo e o somatório das capacidades de escolha individuais. Há países que possuem uma considerável capacidade de escolha pelo seu poderio militar, pelo conhecimento tecnológico e pela riqueza que acumularam (por vezes por meios violentos e à custa da liberdade e do desenvolvimento de outros) mas que ao mesmo tempo podem oferecer opções limitadas aos seus indivíduos. Os indivíduos podem, no seio de um país poderoso e rico, viver vidas de opressão e condicionamento, seja pela pressão para consumirem, para pensarem ou para se comportarem de determinada maneira, seja pela limitação violenta dos seus movimentos.
Onde estaremos nós, em Angola, no que toca ao desenvolvimento, se o encararmos da forma como o descrevo acima? Creio que estamos mal. Parece-me que mesmo aqueles que por vezes pensamos serem poderosos vivem sob uma enorme pressão. Pressão e falta de liberdade que obriga a um esforço permanente para projectar permanentemente a imagem de vencedor, de rico e de todo poderoso. Mas esta falta de liberdade que refiro aqui é talvez um luxo para os não sabem como alimentar os filhos, ou são forçados a abandonar as suas casas ou terras sem ter a possibilidade de escolher.
O desenvolvimento a que devemos aspirar deverá libertar os pobres da opressão provocada pela miséria e vulnerabilidade face à violação dos seus direitos, tal como deve libertar os “ricos” que vivem oprimidos por terem de se mascarar no que não são.
Quanto às outras perguntas que ficaram no ar, falaremos na próxima semana.
Creio que muitos de nós vive na negação, em relação ao nosso real estado de desenvolvimento. Um pouco como o indivíduo que foi pobre e que depois de aumentar os seus rendimentos, esconde por vergonha as suas origens. Eu gosto dos que assumem de onde vieram e que pelo seu trajecto mostram que tudo pode ser transformado.
Atraem-me uma série de questões, que me parecem merecer discussão: (1) O que significa isso de atraso/desenvolvimento? (2) Que critérios são os mais apropriados para "medir" o atraso / desenvolvimento? (3) Quem é que pode, ou deve, medir e avaliar o nosso atraso/desenvolvimento? (4) Em que direcção como país, e cada um de nós como indivíduo, estamos a evoluir?Sejam quais forem as respostas, uma coisa é certa, o estado de desenvolvimento / atraso dos países ou de um indivíduo é algo dinâmico. O estado de desenvolvimento é algo que tem de ser cultivado, como as plantas, sob o risco de se regredir e perder os avanços conseguidos. Progredir e regredir em relação a quê? Eu diria que a possibilidade de escolher é o que melhor integra as várias possibilidades do desenvolvimento. Quem tem mais conhecimento (conhecimento tecnológico mas, também, sabedoria), quem tem mais recursos e riqueza, quem tem mais poder tem normalmente maior poder de escolha. Esta poderia ser uma boa de resposta à questão sobre o que significa desenvolvimento. Assim, quem vive dependente pela pobreza, limitado pela ignorância, ou coagido nos seus movimentos ou na sua liberdade de expressão, vive num estado menos desenvolvido do que aquele que pode optar sobre o que vai consumir, ou fazer, ou sobre o que dizer.
Talvez seja de distinguir entre a capacidade de escolha como grupo e o somatório das capacidades de escolha individuais. Há países que possuem uma considerável capacidade de escolha pelo seu poderio militar, pelo conhecimento tecnológico e pela riqueza que acumularam (por vezes por meios violentos e à custa da liberdade e do desenvolvimento de outros) mas que ao mesmo tempo podem oferecer opções limitadas aos seus indivíduos. Os indivíduos podem, no seio de um país poderoso e rico, viver vidas de opressão e condicionamento, seja pela pressão para consumirem, para pensarem ou para se comportarem de determinada maneira, seja pela limitação violenta dos seus movimentos.
Onde estaremos nós, em Angola, no que toca ao desenvolvimento, se o encararmos da forma como o descrevo acima? Creio que estamos mal. Parece-me que mesmo aqueles que por vezes pensamos serem poderosos vivem sob uma enorme pressão. Pressão e falta de liberdade que obriga a um esforço permanente para projectar permanentemente a imagem de vencedor, de rico e de todo poderoso. Mas esta falta de liberdade que refiro aqui é talvez um luxo para os não sabem como alimentar os filhos, ou são forçados a abandonar as suas casas ou terras sem ter a possibilidade de escolher.
O desenvolvimento a que devemos aspirar deverá libertar os pobres da opressão provocada pela miséria e vulnerabilidade face à violação dos seus direitos, tal como deve libertar os “ricos” que vivem oprimidos por terem de se mascarar no que não são.
Quanto às outras perguntas que ficaram no ar, falaremos na próxima semana.
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24 Setembro (no Cruzeiro do Sul)
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